Literatura

UMA LÁPIDE NA RELVA

 

Conto do escritor
Antonio Contente
O primeiro livro que escrevi foi sob encomenda. Corria o começo dos anos 70 e o jornalista Flávio de Barros Pinto, que havia sido meu colega de jornal, dirigia um dos departamentos da Editora Abril, então nos seus áureos tempos de glória. Coordenava várias coisas, entre elas a publicação de livros de bolso. Como a totalidade das histórias até então editadas, compradas no exterior, só traziam enredos ambientados em outros países, principalmente EUA, Barros, com sua cabeça inquieta e criativa, queria algo diferente. E isso se resumia a um pequeno romance que fosse ambientado no Brasil.
Assim foi que me encontrando certa noite no Bar 308, atrás do prédio da Folha de S. Paulo, Barros revelou seus planos para uma história transcorrida em nosso país. E, logo, perguntou se eu topava fazer algo no gênero. Como minha então mulher estava esperando filho e eu precisava de grana para o parto, respondi que poderia encarar. Dependendo — ressalvei – de quanto fosse ganhar e de quanto tempo demoraria para ter o numerário no bolso.
— Se o texto for aprovado – o famoso editor respondeu, após falar da quantia – pagamos no ato.
Isso ocorreu numa sexta-feira. O que me fez responder com um “então topo; na terça te levo a coisa, na editora”.
— Como assim? – Ele arregalou os olhos – Não me diga que você vai ser capaz de escrever umas 200 laudas em três dias.
— Quer apostar? – Respondi.
Assim foi que, na data marcada, entreguei o prometido. E, menos de uma semana depois, como a história de “Antes da Estação das Chuvas” estava OK, embolsei a grana.
Bom, o livrinho, redigido no melhor estilo de Sidney Sheldon, que era um craque, saiu. Teve boa venda nas bancas de jornal, às quais se destinava, pois custava baratinho, coisa de, em dinheiro de hoje, algo como mais ou menos uns cinco reais. Porém, o melhor ainda estava por acontecer.
Na época a Editora Abril tinha uma espécie de filial em Buenos Aires, muito ativa. Quando meu livrinho caiu na mão deles resolveram traduzir para o espanhol, visando distribuição pela América Latina. Até onde fiquei sabendo, por informações vagas, pois vendera os direitos autorais, saiu bem; desde a Argentina até o México.
Assim é que o tempo foi passando, eu esquecera completamente do “Antes da Estação das Chuvas”. Cerca de um ano já tinha escorrido pelo calendário. Até que, novamente no mesmo Bar 308, atrás da Folha, torno a encontrar com o editor Flávio de Barros Pinto. Que trazia um pacotinho de cartas enviadas pra mim de vários lugares da latino América. Nem olhei na hora, levei pra casa.
E foi ao lá chegar, já bem tarde, que comecei a fazer o que sempre gostava: verificar, pelo carimbo do Correio, de onde a correspondência vinha. De repente, me chamou a atenção algo que me fora remetido de Ushuaia, nos confins da Argentina, chamada pelos próprios platinos como “a cidade do fim do mundo”. Abri a carta.
Quem a assinava era uma brasileira chamada Anita Gonçalves. Dizia estar me escrevendo após ler meu livrinho que a Abril publicara, e que fazia isso por ter nascido na localidade de Paquara, não muito longe de Salinópolis, no litoral atlântico do Pará, onde começava a ação da história que eu havia escrito. Contava, também, estar naqueles confins gelados por ser bióloga, como o marido, inglês, Denis Murdoch. Trabalhavam, junto com cientistas da Argentina e Chile, em projetos de universidades daqueles países em associação com estabelecimento do mesmo gênero sediado em Londres.
Daí em, diante durante vários meses troquei correspondência com Anita. Suas cartas eram densas, bonitas, falava com entusiasmo do seu trabalho e, em alguns trechos, exalava funda nostalgia por estar tão longe de Paquara, o lugarejo que classificava como o mais lindo que já vira em todas suas andanças, que não vinham sendo poucas, pelo mundo.
Até que um dia, de repente, a correspondência dela cessou. Primeiro, resolvi insistir. Uma, duas, três vezes. E nada. Porém, certo dia recebo resposta, enviada por Denis Murdoch: durante viagem de trabalho em um helicóptero militar nas proximidades do Canal de Beagle, o aparelho caiu, morrendo, além de Anita, um dos pilotos. O signatário escapou, apesar dos ferimentos.
Pulemos, agora, para começos deste século, verão amazônico de 2001. Eu me encontrava em Salinópolis, no litoral do Pará, e, como fazia sempre, estendi a viagem até Paquara, reduto de vários pescadores meus amigos. No dia seguinte um deles, que havia sido picado por cobra, morre. E foi ao leva-lo para o cemitério de sepulturas simples, todas com caixilhos de madeira, que avistei uma estranha lápide de mármore, como as que se vê em filmes que mostram cemitérios ingleses. Repousava sobre a relva, à sombra de frondosa mangueira. O mar aparecia ao longe, dava para escutar o barulho das ondas batendo na arrebentação. Na pedra, muito bem cinzelada, estava escrito, em inglês: “Aqui jaz Anita Gonçalves, para cá trazida por seu marido, Denis Murdoch, que muito a amou. E amará para sempre”.