Literatura

UM INESQUECÍVEL RÉVEILLON

Compartilho minha crônica com publicação no Caderno de Cultura e Variedades do jornal Correio Popular, de Campinas, SP

Um inesquecível réveillon
Antonio Contente
Quando conheci Toninho e Lili, ele jornalista como eu e ela prendas domésticas, o casal morava num lindo solar na Chácara da Barra. Nada de majestoso, nada fora do comum. Era uma casa de duas águas com passagem ao lado direito que, seguindo muro coberto de heras, levava a simpático quintal. Aí sim, estava o charme. Pois no pequeno espaço de chão relvado se erguiam algumas árvores. No canto direito uma sibipiruna e um oiti. No esquerdo, a exalar certa imponência, frondosa mangueira. No fundo da residência havia uma espécie de pátio, coberto. Onde, em certas ocasiões a isso afeitas, sentávamos para eu e ele derrubar umas boas cervejas. A moça gostava de vinho. Que me dizia ser o melhor caminho para se apreciar as circunstâncias das oferendas de tardes, nuvens e céus. Ela tinha razões advindas de líquidas, didáticas sabedorias. Fossem elas de origem chilena, francesa, italiana, espanhola ou portuguesa… Nacionais, nunca!
Naquele ano tivemos um dezembro com boas chuvas. Eu estava em casa, depois do almoço, quando, ao observar pela janela o céu no rumo do Jardim das Paineiras, constatei que nuvens mais ou menos negras se movimentavam por lá. Logo um bom trovão eu não diria que explodiu; mas deu robusto sinal de vida. Na continuação, estalou um raio. E o aguaceiro se fez. Forte, de rajadas bonitas, impecáveis. Com o vento pulverizando os pingos, um manto líquido cobria as árvores e as fachadas das casas. A correnteza que se formou na descida da rua Maria Encarnação Duarte seria capaz de arrastar navios. E no mundo inteiro, ao meu redor, era tudo encanto com a formidável cascata que o céu mandava.
Como depois da tempestade vem sempre a bonança, naquela tarde não foi diferente. O ar molhado a ponto de ainda se respirar pingos, ficou impregnado com o bom cheiro da terra úmida, dos troncos com limos a escorrer e o grande muro de heras com as folhas ainda mais verdes. Vivia eu este instante de quase magia, quando o telefone toca:
— O que você acha? – Reconheci a voz de Lili.
— O que eu acho de que, filhota?
— Bater uma taça e com meu marido depois de uma chuvarada dessas? Ele está no escritório terminando matéria para uma revista de São Paulo e te convida pra vir pra cá.
E foi lá, cerca de uma hora depois, nós três sentados no pátio coberto atrás da casa, que recebi a notícia:
— Está vendo aquele xaxim pendurado perto do tanque de lavar roupas? Pois nele um passarinho mais ou menos azul, um passarinho que não sei qual é, está fazendo ninho.
Pronto, foi o começo. Pois o casal, que já vinha acompanhando a tarefa do emplumado, passou a ter outro interessado. Este que vos fala.
Lá pelo dia 20 do dezembro, após outras chuvas que molharam o mundo e aguçaram nossas sedes por bons instantes ao cair das tardes, tanto os moradores da linda vivenda como eu sabíamos que o ninho ficara pronto, os ovos tinham sido postos e o passarinho, quase azul ou talvez azul, chocava.
Passado o Natal que fora como todos os outros, com cada um na sua, de repete recebi convite para grande festa de réveillon na cinematográfica mansão de um ricaço amigo nosso, no Gramado. Liguei para Toninho, animado, a exalar a certeza de que a festança seria imperdível. Porém, a resposta dele não poderia ser mais sucinta:
— Sinto muito, irmão, mas com o nascimento, a qualquer momento, dos filhinhos do pássaro azul, não vai dar.
— Como não vai? – Insisti – É réveillon, meu.
— Nem pensar. Mesmo que eu, por uma dessas inexplicabilidades da vida topasse, a Lili me mataria. E você sabe o quanto sou doidinho por ela. Não há, no mundo, marido mais apaixonado do que eu.
— Nem esposa nas mesmas condições por você… – Acrescentei.
Na realidade, acabei indo para a festa do réveillon no palácio do milionário no Gramado; mas, de repente, após o segundo scotch comecei a achar que tinha muita gente. Como se não bastasse, fui aos poucos sendo assaltado pela lembrança do passarinho no quintal de Toninho e Lili. Meio à sorrelfa, vagarosamente, após a terceira dose, saí.
Quando cheguei na frente da casa do casal amigo, ainda não tinha dado meia-noite. Buzinei na porta e logo Lili apareceu, taça de vinho na mão, toda sorridente:
— Venha, entre, entre.
Fomos direto para os fundos da casa onde Toninho, ao me ver, salta da cadeira
— Nasceram, meu. Hoje de tarde nasceram os filhos do pássaro azul. Falo no plural porque são, acho, uns três. Mas agora estão dormindo.
Sentamos e, meia-noite, estouramos champanhe. Foi um dos melhores réveillons que já passei em toda minha vida.