Literatura

UM CHEQUE NA MOLDURA

UM CHEQUE NA MOLDURA 

Antonio Contente

Eu o conheço faz bom tempo, desde quando eu era repórter. Os papos que já batemos, assim, têm sido inúmeros; porém, nunca fiquei sabendo decertos segredos que, como todo mundo, ele guarda da própria vida. Sei, é claro, que se trata de pessoa muito bem sucedida, que ganhou e ganha belos dinheiros apenas com seu trabalho, limpo e competente. Mora, há anos, num apartamento belíssimo, enorme, num dos melhores pontos dos Jardins, em São Paulo. Tem casa de praia esplêndida em Ubatuba, idem de montanha em Campos do Jordão, e vai à Nova Iorque e Londres, a negócios, com a mesma facilidade com que vou eu a Sousas ou Joaquim Egidio. Pois bem, mas o que gostaria de contar é que, certa vez, precisei ir ao escritório de tal personagem, num enorme prédio na Faria Lima. Para princípio de conversa tomei chá-de-cadeira de mais de uma hora. Segurei as pontas porque, afinal, isso é comum; e fui recebido com tais pedidos de desculpas que me pareceu ter esperado apenas cinco segundos.
Quando, por fim, navegávamos num papo agradabilíssimo, corro a vista pelo amplo escritório, ocasião em que avisto, numa parede lateral, se bem que em ponto nobre, um cheque. Devidamente emoldurado num quadro.
— Algum fajuto que te marcou a vida? – Perguntei, apontando.
— Aquilo? – Ele sorri.
Então, em passos lentos como se estivesse num palco dirigido pelo notável diretor Oswaldo Mendes, vai até perto do quadrinho e passa a ponta do indicador primeiro na moldura dourada; depois, no vidro. Ao se voltar para mim, sorri, ao dizer:
— Na verdade, para você posso contar.
Recordou então que, pelos anos 60, quando sua fortuna ainda estava em projeto, um conhecido chegou pra ele perguntando, ao mostrar:
— Sabe o que é isso?
— Naturalmente, é um cheque. O que é que tem ele?
— O que tem? Aparentemente, nada. Porém se trata de um cheque muito, muito especial.
— Bom – meu amigo pega e olha o nome do emitente – não faço a menor ideia de quem possa ser Maria de Lourdes.
— Perfeitamente. Maria de Lourdes, naturalmente, você não sabe. Mas…
— Mas o que? Que suspense é esse, meu?
O outro, então, como se temesse que alguém pudesse escutar, encosta a boca no ouvido do nosso herói que, após ouvir, recua, os olhos arregalados:
— A vedete?
— Exatamente, a vedete.
— Quer dizer que Maria de Lourdes…
— Acertou na mosca. Este é o seu verdadeiro nome. O outro, pelo qual você a conhece, é apenas o nome artístico.
— Mas afinal – meu amigo pergunta, após uma pausa – o que é que você está fazendo com um cheque dela?
— Muito simples: eu a encontrei ontem de madrugada no restaurante do Papai, com a tropa do teatro, ali na São João, e, como ela estava a perigo, lhe emprestei uns caraminguás.
— Emprestou? E daí?
— E daí que como sei que você é louco por ela, mas não arranja jeito de ir em cima, aqui está a chance. Posso te vender.
— Vender o que?
— O cheque, naturalmente. É de duzentos paus. Você me dá 250 e estamos conversados.
No papo que batíamos o hoje milionário acentuou que comprou a coisa e, horas depois, à noite, nos bastidores do teatro de revista por onde costumava paquerar, estava diante da linda vedete. A quem mostra o papelote que adquirira:
— Comprei este teu cheque – diz – e vim aqui para te devolver.
— Assim sem mais nem menos? – Ela levanta as sobrancelhas.
— Bom, sem mais nem menos em termos. O que quero em troca é que, após o espetáculo a gente vá, ali no Moraes, curtir um bife com agrião. Isso custará algo como uns 100 paus. Você paga. Eu te devolvo o documento e você sairá no lucro.
A moça primeiro coçou a ponta do nariz. Depois disse, com um sorriso lindo:
—OK. Negócio feito.
Assim foi que na madrugada do famoso restaurante da boemia d’outrora, na praça Júlio Mesquita, o casal jantou e ela pagou. Para, ao final, dizer:
— Mas, na verdade, eu saí no prejuízo.
— Saiu? Por que?
— Simplesmente porque o cheque que você comprou não tinha mesmo fundos. E nunca iria ter…
Ao termino da história que o amigo contou, e que achei ótima, voltei a apontar para o quadro na parede:
— Realmente, esse cheque merecia ser emoldurado. É uma linda recordação dos bons tempos.
Quando voltávamos para sentar, o bem sucedido homem de negócios me olha nos óculos:
—- Mas eu emoldurei isso não foi só por ser uma recordação dos Anos Dourados.
— Não? – Levanto as sobrancelhas. 
— Não – ele termina – guardei o belo sem fundos do passado porque seis meses depois do jantar no Moraes, casei com a moça que o havia emitido.
— Casou mesmo, no juiz e no padre?
— Exatamente. E estou com ela até hoje, só que agora com um belo saldo de filhos. Que, aliás, tocam minhas empresas. Pois já vou pendurar as chuteiras pra sair pelo mundo com minha mulher. Sem tempo pra voltar…

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