Literatura

SAUDADE

SAUDADE

Ficou rodeando a mesa, abriu a caneta, conseguiu enchê-la de tinta, sem sujar nada, sentou-se finalmente e ficou pensando no que iria dizer.

Era sempre assim, a dificuldade enorme de escrever, o sem saber por onde começar. A história não estava contada, mas tinha de ser, e ele sabia que a única forma de sobreviver à própria história era escrevendo sobre ela.

Nos últimos meses, aprendera que a saudade pode ser uma companheira.

Chegava em casa, subia para o quarto, tomava um banho, às vezes nem jantava, e deixava a cabeça procurando.

Retirara as fotos do quarto, às vezes acordava à noite, estava sonhando e sabia que a tinha perdido.

Deixara apenas a da garotinha com os olhos infinitos e o sorriso maroto, as pernas elegantes cruzadas, ao lado da boneca Azeitona.

Mas tudo o que havia na casa, tudo o que havia na sua vida, era motivo para lembrá-la.

Guardava algumas roupas que ela deixara no armário junto às suas e sentia prazer em tocá-las.

Ouvia as fitas que ela gravara e algumas músicas pareciam trazê-la de volta. Havia uma especial, o Cuitelinho do Milton Nascimento, que dizia, “a saudade corta como aço de navaia”.

Era bem assim, “O Cuitelinho não gosta que o botão de rosa caia”.

As noites eram longas, no começo sentia vergonha de si mesmo, de estar vivendo uma loucura, sentia medo de estar pirando. Falava sozinho, e quando entrava no quarto e fechava a porta, era como se ela estivesse presente. Chegava a vê-la, linda, sentada na cama com os cabelos caídos na testa, como na última noite.

Depois acostumara-se àquilo. Achava bom, arrumar-se todo, perfumar-se, colocar um whisky no copo, acender um cigarro e ficar pensando.

A culpa desaparecera, já não mais incomodava. Restava apenas a saudade. Assim, como não soubera viver a grande aventura do amor, caprichava ao menos na vivência plena do desamor.

O que realmente importava, e ele sabia, é que na vida das pessoas acontecem poucos momentos de amor. Ele os tivera, e era melhor lembrá-los do que esquecê-los.

Fazia questão de se sentir emocionado. Cultivava cada instante com carinho, afinal ela estava dentro dele o tempo todo, e não queria mostrar uma figura fria, triste, desencantada.

Foi lindo, valeu a pena, e não poderia ser simplesmente esquecido.

Era como arrumar o quarto do filho ausente, como tocar uma canção bem triste, como acariciar o rosto do passado.

Os momentos mágicos voltavam em flashes, a louca noite do reencontro, os beijos na chuva, os dois rindo e chorando, o gosto salgado das lágrimas cheias de emoção.

A primeira viagem, a primeira poesia, a grande paixão.

A noite no mar, o restaurante francês que eles descobriram e amaram, o cachorro, as papagaias, as músicas, os lugares.

O rosto lindo, o estilo, ela dormindo quietinha, o aconchego nos braços, a ternura dos olhos, o corpo vibrando, molhada de amor.

Tudo isso era ela, tudo isso ele amava.

As pessoas se separam, algumas vezes para sempre, são obrigadas a isso, há um momento em que não percebem o que está acontecendo, as emoções atropelam os sentimentos, exacerbam situações.

De repente elas ficam sozinhas de novo.

O tempo vai sublimando tudo, atenuando as cores, empalidecendo os tons, perdoando os erros, aliviando a dor.

E o que resta é a saudade.

Uma infinita, desesperançada, emocionada, e quem sabe até doce, saudade.

MAURO SIMON