Literatura

Saudade dos ladrões Antonio Contente

Antonio Contente
Há um galo que todas as madrugadas, através do seu canto, deposita, em minha mente e meu coração, o doce milagre das auroras. O som vem dos remotos quintais que ainda resistem no bairro. Quintais com muros cobertos de heras e, acreditem, também sobre eles debruçadas goiabeiras nas quais os frutos amarelos brilham como pingos de sol. Mas o que queria contar é que, dia desses, no acordar tão cedo, fui, de repente, acometido de funda saudade. Saudade dos ladrões. Sim, amigos, dos ladrões de galinhas, furtivos vultos que cobriam com um halo de mistério as sombras dos quintais de antigamente. Os ladrões de galinhas, na minha opinião, viraram símbolo para o alimento de fundas nostalgias. Os ladrões de galinhas, para mim, nos dias de hoje, são puros reflexos da mais alvar e cândida honestidade.
Vejam que, nos meus anos de repórter de polícia na falecida paulistana “Ultima Hora”, onde fui colega dos hoje membros da Academia Brasileira de Letras Antonio Torres e Ignácio de Loyola Brandão, cruzava com todo tipo de gente. Certa noite, no plantão do Pátio do Colégio, o camburão chegou com um prisioneiro. Fazia frio; naquela época, com o aquecimento da terra ainda sem Ibope, por lá fazia frio. O detido era um sujeito magro, de ombros pontudos, bigodinho honesto; exatamente o contrário do exibido sob o nariz do José Sarney, parceiro do Lula. Nós, os jornalistas, cercamos o detido para saber o que ele havia feito. Ainda meio foca, eu anotava tudo. Até que me vi escrevendo que o sujeito fora preso no quintal de um casarão na Bela Vista ao tentar roubar umas galinhas.
— Mas por que? – Indaguei.
— Para fazer uma canja – ele respondeu – tenho filha doente em casa.
Observem só que coisa mais simples e mais pura. Logo todos os repórteres que ali estavam se mobilizaram junto ao delegado de plantão; não apenas conseguimos libertar o meliante, como até o levamos ao mercadão da Baixada do Glicério, onde compramos duas robustas poedeiras e um capão para ser obrado o suculento caldo para a guria enferma.
De lá para cá os captores de galinhas, símbolos da pureza, foram sumindo. A própria palavra “ladrão” que, acoplada a eles possuía sentido vocabular meigo, se tornou algo áspero com o passar dos anos. Hoje os amigos do alheio podem ser prefeitos, vereadores, senadores, ex-senadores, deputados, governadores e ex-governadores, presidentes da República e ex-presidentes, filhos de presidentes isso sem falar em juízes e variados lalaus mensaleiros como Genoino e Zé Dirceu. Os ladrões de galinhas viraram, pela modernidade dos assaltos aos bolsos dos contribuintes, os São Francisco de Assis dos alabastrinos pecados.
Sim, mas eu falava do romântico galo que canta perto do meu tugúrio em bairro campineiro, onde ainda existem quintais. Eu mesmo tenho um; pequeno, é verdade, porém suficiente para os movimentos, os gestos e o cultivar de minhas pétalas e o cintilar dos meus orvalhos. Com a súbita saudade que senti dos afanadores de penosas, penso em colocar pelo menos quatro delas nos meus parcos metros quadrados. Vou deixa-las ali a fim de esperar. Exatamente, esperar que em alguma noite sem lua pule o muro um romântico ladrão de galinhas. Ficarei de plantão quantas madrugadas forem necessárias para poder surpreende-lo. E se, afinal, tiver a bênção de pegá-lo com a boca na botija, quero não apenas cumprimenta-lo. Quero doar a ele as aves que, certamente, estarão gordas, e agradecer por sua presença. Meu Deus, proteja a meiga e doce honestidade de um pequeno meliante, pois os que merecem o inferno são os gatunos do colarinho branco que se esmeram em meter a mão nas granas que os governos tomam da gente. Talvez até me ajoelhe aos pés do visitante esperado no meu quintal. Quero beijar suas mãos calejas pelo trabalho árduo, santificado, abençoado. E, em lágrimas, lhe dizer:
— Perdão pôr não conseguir galináceos melhores, meu amigo, meu abençoado brasileiro de franciscana honestidade. Bendito era este país na época em que ladrão, por aqui, só os que afanavam galinhas… Deus o abençoe, bom homem! Que o Senhor lá do céu, na sua infinita bondade, o proteja, meu honesto semelhante, meu maravilhoso compatriota, meu querido anti-Lula, anti-Dilma, anti-Temer, anti-Sarney, anti-Sérgio Cabral, anti-Pezão, anti-Garotinho, anti-filhos-do-Lula, anti-filhos-do-Bolsonaro, anti-Maluf, anti-Renan, anti-Color, anti tantos safados que estão no Congresso, no Judiciário, no Executivo e por aí vai. Acredite, sinto enorme orgulho de tê-lo aqui, diante de mim…
Finalmente, comigo de joelhos quero vê-lo partir. Aureolado como um Cristo no dia da ressurreição!