Literatura

O SILÊNCIO – UMA CRÔNICA DE MAURO SIMON

O SILÊNCIO

Ouvir o silêncio é um privilégio que construímos ao longo da vida.
Nesse mundo barulhento, onde todos falam ao mesmo tempo, os tons se elevam para conseguir espaço, e a gritaria aumenta, num metralhar insuportável.
Atualmente qualquer ruído é considerado música, e frases vazias viram letras, em que os “artistas” proclamam a excelência e a profundidade de suas banalidades.
Não gosto de aglomerações, de muita gente reunida. A soberba e a ignorância conseguem sempre falar mais alto.
No lugar onde vivo, as noites são tão silenciosas que conseguimos ouvir os grilos e o doce piar das corujas. E como temos árvores frutíferas, ao amanhecer, ouvimos o trinado de muitos passarinhos.
Minha casa não tem lajes. Ouço o pingar da chuva nas telhas de barro e o terno assobio do vento nas cornijas.
Às vezes temos pequenas goteiras, mas já nos acostumamos ao pingar delas.
Ah, o silêncio bendito que me atrai sempre!
Não o troco por nada, nem pelas mais belas sinfonias.
Beethoven já estava surdo quando compôs algumas de suas incomparáveis melodias. E nelas também existem as pausas, em que o silêncio é tão necessário.
Prefiro o silêncio dos livros que me acompanham em noites encantadas. Eu posso sempre abri-los e fechá-los.
Uma das mais cruéis formas de tortura, hoje proibida pela ONU (sic), é trancar um homem num quarto, com um som qualquer repetitivo, constante e alto. Ele se mata após um tempo, batendo a cabeça na parede.
Nada pode ser mais trágico do que a veemência dos arrogantes que creem nas próprias mentiras.
Como durmo pouco, ouço o suave ressonar da minha mulher, e se às vezes me levanto, procuro fazê-lo em silêncio, pisando suavemente e abrindo as portas com cuidado.
Aprecio muito os gatos, que se movem e vivem silenciosamente.
Fiquemos quietos, meninos.

MAURO SIMON 11/12/19