Literatura

O IRLANDES DOS LUGARES INCOMUNS

ANTONIO CONTENTE
Pelas barbas do profeta!, como não lembrar de McCallum, o irlandês, ante o criativo outubro que tá chegando. Afinal não foi outro, senão o gringo, a me mostrar, pela primeira vez, que é às brisas de tal mês que as sibipirunas de Campinas em geral, da Chácara da Barra em particular, espalham pepitas d’ouro pelo ar e pelas calçadas. Ora, amigos, façamos, antes de mais nada, merecidas louvações àquilo que os cultores dos preciosismos do estilo criticam como sendo “lugares comuns”. Com que prazer me refiro às florinhas amarelas, que as amadas árvores dispersam, como pepitas do mais puro ouro a tornar ruas, vielas, jardins, telhados ou mesmo restritos altos de muros, em repositórios de sagrados tesouros.
Sim, falava de McCallum, o irlandês, velho amigo que por aí segue, correndo mundo, mas foi meu parceiro de copo em tantas tardes nos belos tempos da rua de Cima, caminho de Santiago de Compostela que me levava da casa ao bar da esquina. Sábio homem de português perfeito na sua intimidade com inúmeras línguas. Quantas vezes, da cadeira do buteco com sacada para a noite, onde sentávamos, chamou-me atenção para os luares que se derramavam sobre asfaltos, galhos ou beirais curvados à espera das águas.
— Veja – me disse certa ocasião – aí temos o céu, neste plenilúnio, cobrindo de prata, de argênteo, a pequena paisagem deste instante que necessitamos para viver.
Ora, amigos, benditos os que seguem chamando luar de plenilúnio, ou que não se importam de denominar, com todas as letras, de argênteas as luzes que as circunstâncias de uma lua que vem da Ásia depositam em mentes e corações.
McCallum agora, pelas notícias que dele recebo sempre, via e-mail, está residindo em Bhaktapur, cidade fundada no século XII no Vale do Katmandu, no Nepal, tornada Patrimônio da Humanidade nos idos dos anos 70 do século passado. Garantiu-me que já fala com certo desembaraço a língua local, o newari, a ponto de nela fazer orações ao deus Ganesh. Utilizando-se dos maravilhosos lugares comuns que os intelectuais odeiam mas eu adoro, me disse assim, em outra mensagem: “Meu amigo, a lua, aqui, nasce sempre como um disco de prata. E de prata é o caminho de luz que traça sobre o lago Runishá onde as brisas, perfumadas como os cabelos da amada, chegam sopradas pelos anjos”.
Na Chácara da Barra d’outrora o aventureiro irlandês só se referia aos passarinhos do bairro como “alados príncipes dos céus”. Certa tarde, quando eu percorria o Caminho de Santiago de Compostela ao contrário, ou seja, do bar para casa, eu o vi a gesticular junto dum muro perto da mansarda em que morava. Fui chegando devagar e percebi, sem identificar direito as palavras, que se expressava em inglês. Não resisti e indaguei: “Falando com alguém ou sozinho”? Ao me olhar, respondeu: “Você não está vendo? Converso com nosso amigo sanhaço”.
— Mas em inglês? – Respondi.
— Você é que pensa que ele só entende português. Passarinhos sacam o que queremos pela entonação do que dizemos.
— Bom – retruquei, olhando em volta – não estou vendo sanhaço nenhum.
— E você acaso acha que, para falar com eles, os bichinhos precisam estar aqui?
Ontem de manhã, na rua Pereira Barreto, observei, entre as muitas sibipirunas, uma prestes a explodir em flores. Os tufos que galhos formavam eram simplesmente inusuais. Pois, na parte de baixo, predominava só o verde forte das folhas. Porém, ao subir, elas como que se arredondavam formando espécie de balão, como os que flutuam na Capadócia ou em Porto Feliz. Parando, pálido de espanto, para admirar, vejo que o verdadeiro globo terrestre de florinhas amarelas já soltava, em doses certas, as primeiras pétalas ao vento. Como diria meu amigo McCallum, pepitas de ouro a se dispersar à luz da manhã não para o nada, sim para formar maravilhoso tapete de pepitas sobre a calçada. Tapete enorme e inconsútil, que bem poderia, de repente, decolar; como o de Aladim e a lâmpada maravilhosa.
Por fim, vale dizer que esta crônica saiu mais por causa da mensagem que troquei com McCallum ontem à noite. De repente pedi que me contasse pelo menos uma das suas grandes saudades dos tempos da Chácara da Barra.
— Ah, meu amigo – senti o suspiro dele na tela do notebook – não há nada que mais me faça lembrar daí do que as sopas da Lulu.
Rapidamente recordei que se tratava de vizinha nossa, adorável, amante de bons vinhos, que de vez em quando nos convidava para um prato do divino caldo. Tão maravilhoso que, lá do Nepal, o irlandês assim se lembrou:
— As sopas da Lulu, meu caro, sempre deslizavam para dentro de mim como cálida, inesquecível canção escrita pela linda moça.
Ah, sim, a compositora das iguarias foi o grande amor da vida brasileira de McCallum.