COMPORTAMENTO

Na Amazônia ainda inteira Antonio Contente

Percebe-se que a preocupação dos brasileiros das várias regiões do país com a Amazônia é cíclica. Ela acaba sendo exalada de forma mais (ou menos) contundente de acordo com o momento político. Em começos de governos a coisa geralmente cresce. Basta que um satélite detecte mínima queimada, que pode até ser na roça d’algum nativo, logo os opositores ao poderoso de plantão começam a berrar. Que o presidente vem sendo leniente com a destruição da mata; o que, e isso nunca foi provado cientificamente, logo levará o mundo a não ter mais ar para se respirar. No começo deste mandarinato bolsonariano não foi diferente. Houve instantes em que se ficou com a impressão de que na região imensa, que ocupa mais da metade do Brasil, em coisa de dias não haveria mais um só tronco de pé. Impossibilitando, até, a feitura de uma simples, reles, magra, raquítica, exangue caixinha de palitos de dentes. Entre os que berravam contra isso apareceu inclusive uma mocinha sueca, que se tornou vilã para quem apoia o capitão que ora ocupa o Palácio do Planalto; e Menina Maravilha para os que querem vê-lo com a boca plena de formigas.
Em muitas viagens à Amazônia, onde nasci, sempre fui tomado, em virtude do exposto acima, por certo clima de “veja isto antes que acabe”. Mas naquela manhã de verão, num distrito próximo à Belém do Pará, banhado pelas águas da Baia de Guajará misturadas com as da Baía do Sol, ambas formadas pelo caudal do Amazonas, coloco-me junto à foz de um rio chamado Maguary. E verifico que tudo continuava como há muitos anos, desde a época em que eu era garoto.
Olhava, na distância, as ilhas, muitas. Sobre todas, a vegetação espessa, alta, marcando, no horizonte, algo que deveria ser eterno. Olhava aquilo imaginando que poderia vir a ser destruído. Só não atinando, na ocasião, como.
Sim, sim, eu dizia que tudo, lá, estava como há muito tempo. Até as casas no que chamaria de Rua da Frente eram as mesmas. De diferente apenas uns dois ou três muros que tombaram e outros tantos que a precaução de alguns moradores ergueu. A súbita certeza de que o tempo parara ao meu redor, deu-me a esperança de que essas histórias de destruição não seriam tão graves.
— E os peixes? – Pergunto para um rapaz que vendia coco.
— É o que não falta – responde.
— Frutas?
— Agora, com a chegada das chuvas, é o tempo delas.
— Caranguejos? Camarões?
— Nem queira saber a quantidade…
Volto então a olhar para a baía e sou tomado pela certeza. Entre as ilhas a visão do horizonte se acabando sobre a água doce do rio reforça a minha impressão de que, afinal, tudo poderia ser muito menos dramático do que dizem os ecologistas.
— Isso é muito grande – murmuro, falando comigo mesmo — não vai ser possível que consigam destruir…
Depois, no instante em que aparecem algumas velas além da foz do rio Maguary, foi como se a recuada no tempo se acentuasse ainda mais. Afinal, houve tempo em que, por ali, nenhum barco era movido a motor. O vendedor de coco me diz:
— As velas voltam porque o combustível tá muito caro, doutor.
Desço a rua e, confesso, meu ânimo ia aumentando. Na borda da pequena praia de areia meio avermelhada, uma velha mangueira, de tronco limoso e gordo, me falava sobre a perenidade de certas belezas. Atrás, a olaria de muros baixos no terreno em volta. Além, o pequeno porto e a enseada com meninos brincando na água de maré enchente.
O bar. Incrivelmente, avisto o velho bar, de um bom homem chamado Alípio. Trata-se de uma simples palafita à margem do curso d’água, algumas mesas e um balcão tosco. Mas onde se comiam peixadas memoráveis. Ao avistar o dono abro os braços, com imensa vontade de dizer a ele que era tudo mentira. Afinal, a decantada destruição da Amazônia por ali não chegara. Porém, concluí ser desnecessário falar sobre certas coisas. Sento e peço uma, estupidamente gelada.
Poucas coisas são tão boas como um sábado a escoar sobre foz de rio, sendo possível ver a água pelas frestas do assoalho. Com a selva ali, o ar tomado por bons aromas de musgos, flores e líquens.
Passado uns dez minutos derrubava meu terceiro copo quando escuto um barulho. Por instantes pensei que algum aviãozinho monomotor passava sobre nós. Todavia, não custou a perceber que o ruído vinha de dentro do rio. E aumentando, aumentando, até dar para perceber que se tratava de uma embarcação.
— Bom – concluo – um barco é um barco. Não se pode deixar de fazer concessões ao progresso.
Tranquilo, permaneço olhando e espero. De repente, o flutuante do barulho dá a virada pela ponta da ilha que o escondia e aparece. Era um batelão de ferro, enorme, completamente carregado. De toras. Toras imensas, grossas, de árvores seculares que certamente demoraram 100, 200, 300 anos até ficarem altas. Peguei o copo e dei um gole. Ora, amigos, foi como se estivessem enterrando uma espada de aço neste meu pobre e já fatigado coração.