Literatura

É em tardes assim

                                                         Antonio Contente

 É em tardes assim, com o ano já em meio, que você reencontra pássaros sumidos, ágeis por íntimos dos seus espaços serem, ternamente pousados nas árvores de súbitos quintais. Aparecem, devemos ter esta pretensão, apenas para nos ver. Pois assim que os detectamos entre folhagens acariciadas pela luz mansa, nos olham, mexem as cabecinhas e se vão. Como a confirmar que é em tardes assim que amam a nós relembrar ser este o seu destino: fornecer pitadinhas de encanto para depois se diluir na mínima, porém espaçosa plenitude do que nos cerca. 

É em tardes assim

 É em tardes assim que o céu mostra ser o real invólucro da anunciação de ternuras. Você já imaginou poder colher pedaços dele? Tente, certamente nestas horas claríssimas de meio de ano você conseguirá reter, nas mãos em concha, o azul que tem plenitudes de infinito, colorido que está pela cálida percepção inviolável dos anjos. É em tardes assim que até nos meses tidos como aziagos, como os de poucas águas, há sopros sobre caminhos por onde deslizam belezas e balem as ovelhas que apascentamos, com aquele cajado de memórias, em nossos corações.

 Ah, amigos, é em tardes assim que na Praça dos Pássaros, pertinho deste tugúrio campineiro onde estou, que acompanho as marcas deixadas; não no chão, mas na solenidade do espaço, pelos passos de sentidas recordações. Em tardes assim é que velhos muros deixam de limitar metros e se abrem às belezas que ainda moram nos resistentes jardins. Em tardes assim ocorrem sempre ressureições de temas. Como os daquelas histórias de moças que nos encantaram em algum momento para depois, hibernadas em nossas almas, ressurgirem de repente em instantes como este de luzes acariciantes. Em tardes assim, mesmo sem estar lá, caminho solenemente por certa rua antiga, muito antiga. Na qual os prédios ainda não derrubaram as casas, e os canteiros em frente a elas, tão grandes por serem tão simples, nunca deixam de exibir flores que plantamos sem nunca ter cavado um mínimo de chão das muitas estradas interiores que ainda vamos percorrer.

 Em tardes assim não há fugas que possam frustrar tentativas de capturas. Ouvimos então com facilidade o cântico das sibipirunas e sentimos, adiante, nas folhas que o vento balança, o brotar das amoras que alimentam o esvoaçar dos passarinhos. Nestas tardes os emplumados traçam horizontes nos ilimitados espaços entre dois galhos, onde o infinito mora no vértice da forquilha. Seus cantos fluem, resvalam sobre paredes nas quais os limos são sinais do tempo que, após escorrer, solidificou nos vãos das frinchas. Estas tardes preparam portas e janelas para o trajeto das noites. Com seus calores, ou não, sobre os botões das flores possíveis; que só brotam ao cair sobre eles os primeiros suspiros das estrelas. Depois, orvalho do amanhecer, respingado no significado mais terno da tênue luz das auroras…

 É em tardes assim que vemos o quanto é bom saber, agora, a importância do caminhar lento. Pois é através dos passos mansos que se chega mais rápido ao destino das pequenas grandes coisas escondidas. Em tardes assim somos subitamente sábios, subitamente tolerantes e subitamente amplos. Estamos então prontos a desvendar os hieróglifos da Pedra da Roseta da vida, de repente limpíssima como vagido de criança ante a primeira golfada do ar da vida. 

 É em tardes assim que a dobra das esquinas é o caminho certo para os abraços do destino. Pronto para transformar o prosaico asfalto da rua em riacho de águas claras, em que os peixes são incrustações de pedras preciosas saídas do leito de areias muito brancas. E no meio-fio das calçadas, brotam os pingos de paisagens que abrigam e flor perfeita, desenhada pela certeza do aprendizado do encanto.

 É em tardes assim que, parados, iniciamos viagens intermináveis. Subimos as montanhas dos cumes cobertos não por neves eternas, sim pelos sonhos que menos eternos não são, desde que saibamos sonha-los. É em tardes assim que se retém, num só abraço, até os amores que, de uma forma ou de outra, ficaram inconclusos. Para que, na compreensão dos instantes que apaziguam, tenhamos um só bloco de recordações que limpam, lustram, enriquecem e cantam.

 Nestas circunstâncias somos tomados pela certeza de que as vozes estão sempre embebidas de verdades. Como naquele quase crepúsculo em que, jogando o arguto olhar pela janela do seu lindo morar, querida amiga hoje reclusa na Vila Teixeira da linda cidade de Garça, captou a mensagem; justamente ao pousar seus olhos em algo além das nuvens muito brancas, e seus ouvidos no Aznavour do “Old Fashioned Way”. Depois, deslizando até o computador, mandou que a máquina, subitamente humanizada, me dissesse: 

 — Olha, é em tardes assim, deste meio de ano, que nós outros, mesmo quando não mais existirmos ainda seremos eternos. Para repetir os passeios que já demos; mas principalmente planejar, com esperanças, os que ainda vamos dar… do Yahoo Mail no Android