Literatura

CRÔNICA DE AMOR DE MAURO SIMON

Os grandes olhos escuros estavam fundos, emoldurados por olheiras, a boca ampla, os cabelos macios, a pele clara e lisa.
Foi acordada pela empregada que entrou no quarto e abriu as cortinas.
O corpo agora mais magro, ainda mantinha as formas perfeitas. As manchas eram poucas, quase escondidas na cintura e na virilha. Sentia-se bem naquela manhã. Quando levantou-se, não teve nenhuma tontura e nem a náusea acompanhou os seus movimentos.
Tomou um banho demorado, secou os cabelos no pequeno terraço, olhando a quadra de tênis, os hibiscos vermelhos na manhã ensolarada.
As cápsulas coloridas, enfileiradas como soldados na bandeja, foram tomadas resignadamente uma a uma.
Lembrou-se do hospital de onde sairá há dois dias e sentiu-se um pouco aliviada. Era bom estar em casa, cercada pelos objetos que amava. Os quadros, os tapetes, a cama enorme, os lençóis de linho. Pensou no pouco tempo de que dispunha, nas últimas semanas terríveis, nos exames dolorosos, nas esperanças renascidas e implacavelmente esmagadas
Pegou o caderno de endereços e começou a discar.
Eram oito os homens escolhidos. Pensara neles nas longas noites no hospital, e a opção fora feita. Eles tinham sido os melhores, simplesmente isso.
O diálogo repetido, começava sempre com: “Estive viajando, recebi seus recados, estou com saudades. Vem me ver hoje à noite, tomaremos um drink aqui em casa, contarei a viagem”.
Os homens se conheciam, alguns eram amigos, frequentavam os mesmos lugares. Alguns eram casados, de idades diferentes, e ela os tivera a todos nos últimos anos.
Ela gostava dos homens. Nascera para isso – aquela coisa insaciável que pedia mais, mais, sempre mais.
Almoçou sozinha na grande sala, ouviu música, folheou uma revista e adormeceu no sofá. Um sono agitado, os ruídos da rua se misturando com o sonho, a dor lá dentro indo e voltando.
Quando acordou era quase noite. Encheu a banheira colocou a espuma perfumada e deixou a água acolher seu corpo. Olhou para suas pernas esguias, as coxas lisas, os pés magros e bonitos. Os seios pequenos, atrevidos, as ancas redondas, a bunda altiva, o longo pescoço. Era linda, e sabia disso.
Eles deveriam chegar às oito horas. Pediu à empregada que colocasse as bebidas e o gelo.
Escolheu um vestido branco, simples, maquiou-se levemente, os olhos e a boca. A noite era quente e as margaridas perfumavam docemente a casa. Gostava das margaridas e as tinha sempre por perto.
Eles foram chegando, meio sem jeito, não entendendo a presença dos outros. Ela os recebeu como se cada um fosse o único convidado.
O sorriso luminoso, a voz grave, o andar de deusa.
Conhecia os homens. Gostava realmente deles e sabia como tratá-los.
Os drinks foram sendo tomados, as horas passando, a conversa, de início contraída, foi-se soltando. Perguntas sobre a viagem, respostas evasivas. Os homens aparvalhados, meio bobos – como ficam diante de uma mulher que desejam, no meio de outros homens.
De repente, ela levantou-se do braço de um sofá, caminhou até o aparelho de som, abaixou o volume da música e voltou-se para eles. Começou a falar com a voz mansa, um meio sorriso enfeitando as palavras, as palavras que contavam o que tinha acontecido.
Contou a verdade, omitindo detalhes dramáticos. Riu de si mesma. Percebeu, quando se encheram de lágrimas alguns daqueles olhos, que os goles ficaram maiores, as mãos agitadas.
Dirigiu-se a cada um, chamou-os pelos apelidos. Tinha mania de os colocar nas pessoas de quem gostava. Lembrou os momentos bonitos, recordou passados recentes. Ela sabia exatamente o que tinha significado para cada um e o que cada um tinha significado para ela. Isto tornava as coisas mais fáceis.
A deusa que dera um sentido àquelas vidas, a mulher que proporcionara momentos de loucura inigualáveis, a fêmea que redimira os machos, aquela mulher que, se quisesse, teria destruído a todos… ali estava: frágil, efêmera, indo embora deles para sempre.
Eles foram se aproximando, as mãos agarrando, beijando, abrindo, e ela os recebeu a todos.
A noite foi longa. Ela estava deitada nua na cama desfeita. As margaridas amassadas. O rosto infinito, calmo, o corpo devastado, o peito parado.
Não precisava mais voltar ao hospital.
Mauro Simon