INTERNACIONAL

Crise na Venezuela

Por que a crise na Venezuela interessa tanto países como Rússia, China e Turquia
Stefania Gozzer
BBC News Mundo

Fotos Getty Images

A questão venezuelana ultrapassa as fronteiras do continente americano
As notícias sobre a Venezuela ganham destaque em países muito além da América Latina. Seja no alfabeto latino, cirílico ou persa, o país sul-americano desperta interesse em todo o planeta – mesmo em Estados com os quais a Venezuela não tem laços históricos ou comerciais.
A Venezuela de Nicolás Maduro (e antes disso, a de Hugo Chávez) é um assunto polêmico inevitável em debates eleitorais de nações tão diferentes quanto Espanha e Irã.
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Provoca divisão, inclusive, entre parceiros políticos. Foi o que ocorreu com o Movimento 5 Estrelas e La Liga, que governam juntos a Itália, mas têm posições opostas em relação à legitimidade de Maduro como líder do Executivo – por isso, os grupos decidiram não reconhecer nem Maduro nem Juan Guaidó como presidentes da Venezuela.
Acima de tudo, a Venezuela mantém em compasso de espera as nações que não têm boas relações com os Estados Unidos.
Mas o que há de tão especial na Venezuela que atrai a atenção de tantos países?

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China de olho nos seus investimentos
A razão da China para acompanhar de perto o que acontece na Venezuela tem 11 números.
O país asiático é o maior credor de Caracas. Enquanto o resto dos agentes econômicos duvidava cada vez mais da capacidade do país sul-americano de saldar suas dívidas, Pequim emprestou mais de US$ 50 bilhões para a Venezuela (alguns analistas estimam que o valor seja ainda maior, na ordem de US$ 67 bilhões).
Acredita-se que boa parte desse empréstimo já tenha sido paga pelo país sul-americano. Segundo Carlos de Sousa, especialista na América Latina da empresa de análise e previsão econômica Oxford Economics, ainda faltaria pagar pelo menos cerca de US$ 16 bilhões.
 

Acredita-se que a Venezuela deva à China cerca de US$ 16 bilhões

Foi justamente essa falta de transparência que fez com que a opinião pública chinesa ficasse desconfiada dos investimentos feitos na Venezuela.
Vincent Ni, analista da BBC para a China, explicou à BBC World que o governo “geralmente é muito aberto” em relação a seus investimentos no exterior. Então, o fato da China não “querer revelar quanto emprestou à Venezuela diz muito”.
Diante da censura a que está submetida a população chinesa, é preciso recorrer à internet para saber o que os chineses pensam sobre esse tema. “Basicamente, (os chineses) dizem que a China ainda é um país em desenvolvimento e que há muitas pessoas vivendo na pobreza. (Assim, como pode) estar dando tanto dinheiro a outros países?”, disse Ni. O especialista ressaltou, porém, que é difícil saber o quão representativos são comentários anônimos na internet com esse teor.
Mas a decisão chinesa de investir na Venezuela é estratégica. “(A China) sempre teve uma visão de longo prazo em relação à Venezuela: sendo este o país com as maiores reservas de petróleo do mundo, fazia sentido investir ali como uma forma de garantir uma fonte de petróleo, (produto) que é necessário para seu crescimento”, disse Carlos de Sousa, da Oxford Economics.
Russ Dallen, um dos sócios do banco de investimentos Caracas Capital Markets, disse ao canal americano CNBC que os chineses temiam que a oposição venezuelana não reconhecesse as dívidas contraídas pelo país durante os anos de Hugo Chávez – ou então que encontrariam “brechas legais” para não honrar com os pagamentos.
“Os chineses não sabem o que fazer. Os homens de Maduro não estão pagando… e a situação continua se deteriorando”, disse Dallen.

Tudo por dinheiro.
Alguns chineses criticam que seu país empreste grandes somas de dinheiro a outros candidatos, quando ainda há tanta pobreza no próprio país
Porém, Guaidó já tentou dissipar as dúvidas e os receios chineses. “Nosso governo vai agir com respeito às leis e às obrigações internacionais (da Venezuela)”, disse Guaidó em entrevista ao jornal chinês South China Morning Post, no início de fevereiro. “Todos os acordos que foram assinados com a China de acordo com a lei serão respeitados.”
Pequim, por ora, já demostrou seu apoio a Maduro. Mas também admitiu ter falado com “todas as partes” do conflito. Mais do que fidelidade política, a prioridade chinesa é assegurar seus interesses econômicos.
“A China ainda não sabe que lado escolher”, disse Ni. “Durante a Primavera Árabe, (a China) apoiou (o falecido líder líbio) Khadafi até sua queda. Mas, quando ele caiu, (a China) mudou de lado e ninguém se importou”.
A Rússia e os dois campos de batalha
A Venezuela tem forte presença na mídia russa e até no Parlamento do país.
Para a Rússia, a Venezuela representa um interesse geopolítico “muito importante” para “neutralizar os interesses” dos Estados Unidos em áreas tradicionalmente consideradas de influência russa, explicou Carlos de Sousa.
“(O envolvimento dos EUA no confronto com a Ucrânia) foi uma situação muito incômoda para a Rússia”. Então, o governo Putin está fazendo o mesmo na Venezuela: ‘bem, agora sou eu que te incomodo’. Então, (a questão venezuelana) não é algo essencial, mas é interessante para que a Rússia tenha alguma influência no ‘quintal’ dos EUA”, acrescentou o especialista.
 
Sasha Mordovets (foto)

A Rússia tem interesses econômicos e geopolíticos na Venezuela
Para os russos, a Venezuela não apenas representa um campo de batalha externo, mas também interno.
O editor do serviço russo da BBC, Famil Ismailov, afirmou em dezembro: “Geralmente, o povo russo está cansado de ajudar governos como o sírio e o venezuelano, em vez de ver esse dinheiro investido dentro do país. Mas o governo russo tem uma máquina de propaganda muito forte”.
O presidente Vladimir Putin apoia fortemente Maduro, e a imprensa russa oficial questiona o apoio popular à oposição venezuelana.
“Também há interesses econômicos muito importantes. A Rússia investiu cerca de US$ 10 bilhões (na Venezuela)”, apontou Sousa. Alguns analistas acreditam que o número pode ser ainda superior, de cerca de US$ 17 bilhões.
“Os russos viram (a situação da Venezuela) de forma oportunista. A recessão no país e a queda na produção de petróleo já haviam começado. Então, a Rússia viu uma oportunidade de comprar ativos da indústria petrolífera a preços muito baratos”, disse o analista da Oxford Economics.
Os deputados russos questionam frequentemente sobre o futuro do dinheiro emprestado para a Venezuela. Um dos motivos é que, na Rússia, muitos pensam que esse dinheiro não vai ser recuperado.
“Quando os russos investem em um país, fazem isso pela política, não por razões econômicas. Esse dinheiro (emprestado para a Venezuela) não vai voltar. É um pagamento feito à Venezuela pelo seu apoio à causa russa”, continuou Ismailov.
“É importante mostrar para o público interno que a Rússia desempenha um papel de superpotência e tem países amigos. (A ideia então é que) vale a pena pagar por isso”.
“A oposição venezuelana já indicou tanto para a Rússia quanto para a China que quer continuar a fazer negócios com esses países no futuro, quando estiver no governo”, afirma Sousa. “Obviamente, quando a oposição assumir o governo no futuro, se assim for, toda a dívida com a China e a Rússia terá de ser reestruturada… E, sobre isso, eu não tenho a menor dúvida: todos vão perder em alguma medida.”
 

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